A dualidade da noite é uma realidade de todos os tempos e de todas as civilizações. A chegada da escuridão sempre alterou os ritmos da vida humana, intimamente relacionados com o ciclo da luz natural. Para a generalidade da sociedade, o...
moreA dualidade da noite é uma realidade de todos os tempos e de todas as civilizações. A chegada da escuridão sempre alterou os ritmos da vida humana, intimamente relacionados com o ciclo da luz natural. Para a generalidade da sociedade, o pôr-do-
sol anuncia abrandamento e recolhimento, à medida que o dia de trabalho dá lugar às horas de descanso. Mas, na sua outra face, a noite fomenta divertimentos, intimidades e vícios que lhe são próprios. Para uns, surgem oportunidades para
o segredo, a insubordinação ou o desvio. Para outros, as trevas e os seus mistérios inspiram a devoção, a introspecção ou o temor. Lugar destas vivências contrastantes, a noite gera percepções complexas e contraditórias. Podemos detectá-las na acção dos poderes, nas crenças religiosas, nas representações artísticas, na cultura letrada e em momentos rituais e do quotidiano. Estas realidades podem ser analisadas sob os mais variados pontos de vista – da antropologia aos estudos literários, da filosofia à história da arte, entre tantos outros. Assim, em resposta à escassez de produção historiográfica especificamente dedicada à noite, propomos uma perspectiva histórica
centrada na Época Moderna (séculos XV a XVIII). Concebemos quatro painéis com
base em questões que julgamos úteis a uma primeira sondagem do tema: quais as relações e articulações entre os poderes e a noite? Que traços estéticos e simbólicos da noite surgem na arte, nas festas e nas devoções? Que reflexões e desvios nos
comportamentos e crenças são suscitados pelo recolhimento nocturno? Nas ruas, que personagens e dinâmicas habitam e configuram a noite? Com a troca de ideias proposta por este inquérito, procuramos dar azo a uma exploração da noite na Época Moderna que, longe de definitiva, queremos inovadora e historiograficamente
pertinente.