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Pedro Mesquita
  • Lisboa, Lisboa, Portugal
Nascidos na década de oitenta do século XIX, mas afirmando-se na vida pública, sobretudo a partir da segunda década do século XX, Raul Proença (1884-1941), Jaime Cortesão (1884-1960) e António Sérgio (1883-1969), pelo modo como aliam a... more
Nascidos na década de oitenta do século XIX, mas afirmando-se na vida pública, sobretudo a partir da segunda década do século XX, Raul Proença (1884-1941), Jaime Cortesão (1884-1960) e António Sérgio (1883-1969), pelo modo como aliam a produção intelectual com a intervenção cívica e política, evocam irresistivelmente a famosa Geração de Setenta de Antero de Quental, Oliveira Martins e Eça de Queirós, apesar de tudo o que desta os separa nos subsequentes percursos de vida e orientações ideológicas. Em comum e sempre, uma idêntica ética da missão do intelectual na cidade. Em comum também a admiração por Antero e a rejeição dos dogmas do naturalismo cientificista. No seu conjunto, os três constituem-se em exemplos do modo como uma certa intelectualidade portuguesa pretendeu atualizar o melhor do século XIX, herdado da Geração de Setenta, dentro do século XX, demarcando-se ao mesmo tempo criticamente das novas correntes culturais e filosóficas do novo século. Uns e outros, porém, carregarão para a história o estigma do fracasso da intervenção dos intelectuais na transformação da pólis e da sua impotência política, traídos pela comum crença utópica na possibilidade de mudar os homens e as mentalidades através do poder das ideias. Mas das duas trindades de intelectuais, a da Geração de Setenta e a seareira, foi sem dúvida esta última a que mais longe levou essa crença. Mais coesa como grupo, dotada de um programa reformador mais estruturado e de meios de intervenção midiática de maior alcance, viu-se, porém, a breve trecho entalada entre elites intelectuais bem mais sensíveis às ideias autoritário-conservadoras, numa primeira fase, e ao marxismo, numa segunda fase. Esgotava-se o tempo do intelectual-profeta ou consciência moral guia do povo, para emergir o tempo do intelectual-instrumento quer do Estado deificado no seu chefe político, quer da classe operária representada na sua vanguarda partidária. Seriam necessárias mais algumas décadas para que, em democracia, se viesse a superar essa dialética entre a concepção do intelectual-instrumentalizador do poder político e a do intelectual por este instrumentalizado. Não, porém, sem que a situação atual deixe de levantar novas interrogações sobre o estatuto dos intelectuais num mundo marcado pelo fim das grandes narrativas de legitimação e pelo poder da imagem, dos media e das novas tecnologias de informação. Até para que os intelectuais não se vejam hoje condenados a um simples papel ornamental e sejam capazes de manter e até de ampliar a sua liberdade e a sua força de intervenção crítica. Eis, entre muitos outros aspectos, a importância histórica e filosófica desta geração de intelectuais portugueses, a quem pode caber o epíteto de “geração de ouro”. (Do Prefácio de António Reis)
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